Grandeza do Homem
Somos a grande ilha
do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"
Frescura
Manta estendida sob um
chão de folhas macias
água fresca que passa sem pressa no riacho
na copa das árvores
água fresca que passa sem pressa no riacho
na copa das árvores
um melro desafia-me com
uma canção de embalar
a luz irrompe entre a folhagem
e os raios de sol chegam esmorecidos
causando um arrepio ameno na pele
aconchego-me e fecho as pálpebras,
aqui não existe tempo nem paredes
e os raios de sol chegam esmorecidos
causando um arrepio ameno na pele
aconchego-me e fecho as pálpebras,
aqui não existe tempo nem paredes
onde nada me pertence
apenas a liberdade de
pensar
confio ao vento
pensamentos verdes
quem sabe um dia regressem maduros para me
abraçar.
Ao meu lado, o silêncio é usurpado pelos risos
das crianças
e fico ali contagiada por essa inocência,
e sinto o sangue
fluir-me nas veias
a melodia continua a
desafiar-me
ali, naquele lugar onde
não existe o tempo
solto o sorriso.
Nene, Julho
2012
ALMA NUA
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A minha ALMA está NUA,
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tão vazia e cheia de tristeza,
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de prazer e de incerteza
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que a vida teima em esconder.
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A beleza da vida é crua
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e eu não quero assim viver !
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Uma vida que não sorri, só amua
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e me rouba constantemente
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o que um dia sonhei ter !
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Ficou NUA, a minha ALMA ...
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||
Quando uma brisa de ar quente
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esboçou, na minha frente,
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uma imagem de Ti.
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||
Não quero mais a presença
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do teu desejo comovente,
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nem da tua indiferença,
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de um olhar já distante,
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ou de um Amor ausente !
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||
Cristina
Ferreira 2005/07
Estória com história
Maestra: águia real
Dedico
a todos los compañeros de la clase de español de febrero a marzo de 2011, este cuento que no es solo un testigo de nuestro aprendizaje
del español, pero también de nuestro compañerismo.
La
clase es muy variada y muy ruidosa, pero gustan da maestra y todos llevan muy
buenas recuerdos y todavía, los contenidos básicos para que posamos charlar,
leer, viajar, trabajar, todo en español.
Em tempos de crise até a passarada está em
alvoroço. Decidem aprender espanhol, pois pelo andar da carroça, são bem
capazes de emigrar para terras de nuestros
hermanos.
A piriquita faz tremenda algazarra, tudo
porque acha que “echar” é engraçado:
echar las patatas; echar una mano; echar
de menos; echar un ojo; echar un polvo…
A maestra águia real intervém: - “Piriquita!”
-“Si?!” – responde a piriquita.
- “Echar una mano” es bueno; “echar
un polvo es mal”!!
- “Más maestra, a mi me da igual!”
- “Piriquita!”
-“Si?!”
-“?Por
qué no te callas?!”
A risada é geral, a passarada
faz tremenda algazarra, e a maestra grita:
-“Respeto
por favor!!” Al trabajo!!
Mas, antes, vamos às apresentações:
maestra águia-real – livre, independente, líder, viajar é o
que gosta mais, socializar e comer. Está sempre pronta para a farra. Quando for
velhota já vai ter viajado pelo mundo e recolhido mil e uma lembranças. A festa
sem ela não é a mesma. Suas covinhas são de morrer!
piriquito - irrequieto, barulhento, castiço, ou
talvez não. Adora mimos, alegria, conhecimento, mas habla pelos codos. O que mais gosta é de aprender e animar a malta,
sim, porque tristezas não pagam dívidas. – “Ao pé de mim ninguém está
triste!” – é o que ela sempre diz, mas às vezes esquece-se de ser adulta, e
excede-se na brincadeira, perdoname
maestra águila!...
falcão – desconfiada, astuta, meiguinha. Adora o
filhote e comer. Quando chegam as 8 horas, o seu nariz ronca, e ela ri-se sem
parar. Sabe-se lá porquê… o bisavô era chinês, por isso ela tem os olhos em
bico.
Nisto…-
“ Meus cojones!!” – grita o falcão,
agitando o telemóvel.
- “Quê?!!” – responde a passarada em coro.
-
“Cojones de Natal carregados de frutos
secos e chila.” Foi o bolo rei do Natal passado. Delicioso!!
_”Que lindo!!”… – responde a passarada.
Nós também queremos.” – ficam com uma dolor
en el codo, está visto.
Continuemos
…
coruja – símbolo de sabedoria, sossegada e
inteligente. Adora justiça, mimos, inteligência, cozinhar. Dá raspanetes aos preguiçosos
e receitas às amigas. Fala alemão e a sua descendência vem do espanhol e
Brasil. Que mistura exótica!! Putamadre!!
flamingo – graciosa, meiguinha, simpática, de
pernas altas, inconfundível. Gosta de aprender e do mar. Um dia preparou uma
tarte deliciosa, de lamber os bicos! Ainda diz que não sabe cozinhar… modesta. A
gaivota adora as suas mãos, que é como quem diz, as suas belas patas que não
parecem ter fim.
gaivota – Gosta do sossego. Traz sempre belos
bolos para os amigos, e a ginginha do pai. Ai se ele sabe!! Porém anda sempre
atrasado, diz ele que é do trabalho, será?!
Mas esta siempre ao loro …O
seu hobby é carregar na pistola e pintar os amigos e leva isso muito a sério,
faz parte da selecção portuguesa e tudo!
cisne branco – mimosa, coquete, muito elegante e
céptica. Aprende rápido porque tem que trabalhar. É muito segura de si e
raramente diz disparates, mas muito insistente nas dúvidas, e à nossa maestra
salta-lhe a tampa.
andorinha, de Trás-os-Montes – belo, jovem, calmo e
doce. Diz ele que come de tudo por respeito às tradições da família… será?! É
castiço e misterioso. E não se assustou com os disparates da piriquita, fica sempre
na sua. BOA!! Mas não engraça com ditos populares, diz que são perda de tempo.
caturra –
bonita, mimosa, com o seu penachinho… que é como quem diz: una cola de caballo. Faz desporto, mas ainda não disse qual, só se
sabe que ela leva isso muito a peito. Achava que ser pequenita era um frete,
até encontrar o piriquito que ainda é menor que ela. Ficou aliviada. UFA!!
as 2 gralhas – faladoras, compinchas. Só dizem baboseiras,
mas são engraçadas. Adoram a algazarra e a paparoca. Um tem a mania da
contradição, se dizes SIM, ele diz NÃO;
o outro é mais quietinho, mas sabe-a toda…
canário – fala bastante, mas calmamente, de sorriso amigável. É muito
versátil e um bom aprendiz. Vai na onda das gralhas, e distrai-se, ooopss…
pavão – com as suas cores vistosas, muito seguro
de si, tem um ar pacato. Ele diz: - “Te
digo que no me dan palo al agua! “, sim, até porque ele já fez a sua parte,
mas é muito estudioso e até está a tirar um mestrado, e esta hein?… Mas este
passaroco é biqueiro, então não é que o finório, foi à socapa, atacar as
bifanas!
pombo – simpático, muito educado e bem disposto
e de boa boca. Adapta-se perfeitamente à cidade, sempre com o telemóvel colado
à orelha. Adora os relatos de futebol, entra o golo dum lado e os verbos do
outro. Acha piada aos disparates da passarada.
rola – simpática e algo tímida. Adapta-se à
companhia dos vizinhos pombo, gaio e cuco, até parece estar sempre debaixo da
asa do pombo, muito quietinha, parece um pompom tufado.
gaio – sempre muito alegre e brincalhão. Atira
os foguetes e apanha as canas. Não larga o chapéu. Diz que tem frio na tola,
também não admira, pois as penas fugiram nem se sabe porquê… talvez uma
ventania… É bombeiro de profissão e
voluntário de coração.
cuco – “o cuco não comia couves… “Agora gosta
delas e de tudo, é boa boca. Dá vinho à passarada, e do bom, mas sabe que é
proibido. Admira-se com tudo e fala muito com o gaio… mas sempre em sussurro.
pata real – algo teimosa e senhora do seu nariz …
sempre pronta para a paródia. A idade permite-lhe dizer o que pensa, com a
sabedoria necessária para não ferir ninguém. Admira-se muito com a piriquita e
ri-se à brava e até lhe disse para se poupar e abrandar…
colibri – coquete, alegre e carinhosa. Simpática e
inteligente. É amiga da pata real e boa cozinheira. Pena que às vezes não tem
tempo, mas o microondas lá de casa trabalha que se farta, tudo para deliciar os
filhos e os vizinhos.
melros – podem ser vistas sempre juntinhas, e sempre
de preto; não largam a gaivota, não vá ela trazer mais um bolinho. Uma é mais
caladita e nunca se ri, a outra dá pancadinhas nas costas do compincha gralha.
–“Eu só faço o que me mandam” – afirma com veemência.
Entretanto, chega a hora da
paparoca, e todos se juntam ao redor da mesa, comendo e bebendo alegremente. O
vinho não é permitido, mas quase todos gostam e é de boa qualidade… (foi o cuco
que trouxe, debaixo da asa).
Eis que surge um inconveniente:
aparece o abutre e o corvo e dão um raspanete à maestra águia, tudo por conta
do vinho. Muito segura de si, aguenta firme.
-“Meus
alumnos nada de vino!”
-“Mas
maestra posso traze-lo na garrafa da coca-cola?”– diz a gralha.
-“Não,
acabou-se a partir de agora só chá”
– responde a maestra águia.
(Como se ela o bebesse!)
Chaaaaaaaa!!!!
Recomeça a aula, verbos para
aqui, exercícios para ali, e eis que surgem as expressões idiomáticas, os provérbios
de nuestros hermanos.
A andorinha não gosta e bate a
asa:
-“Nego-me a decorar isso, não gosto, não entra na minha cabecinha!”
A maestra águia tenta
convencê-lo, em vão, pois a andorinha é firme, apesar de jovem é de fortes
convicções, ainda dizem que os jovens são ocos, tretas…
A discussão dura alguns minutos
entre a maestra e a andorinha, que até faz a passarada intervir, com tal barulheira,
como nas manifestações e greves, em que ninguém se entende e não se chega a
lado nenhum.
Nisto, a piriquita, mete o bico
(como sempre):
- “Andorinha, estas a dar una lata, porque no te callas, cariño?!
- “Vale”, responde a andorinha, e a maestra águia, não fosse ela uma
líder, responde à piriquita:
- “Piriquita tu me das una lata!! !Jolín!
A passarada parte el coco e a piriquita fica
indignada, mas concorda, pois não se
deve meter o bico onde não se é chamada.
-
“Mas maestra para que me oigas tenho que hablar mas alto, vale?”
A maestra tapa os olhos e a
passarada faz tremendo alvoroço.
-
“Maestra no caigas de culo”… - adverte
a piriquita.
- “Oh passaroca, no es caer de culo, pero irse de culo, Dios mio! –
fala a maestra toda arrepiada.
Os dias passam, as matérias são
estudadas, os diálogos telefónicos são muito úteis e divertidos, e por fim
chega o grande dia: o último dia!
Oooooooooooooooooooo!!!!
A maestra águia despede-se,
relembrando os alunos que ainda há mais para aprender, e não se esqueçam de
praticar.
A Cisne e a Flamingo já estão a
colocar em prática o que aprenderam, dialogando com os clientes, houve um que
disse à Cisne: - ?!Usted habla
galego!!??. Ela ficou tão corada e orgulhosa…
VÊS??!! Diz-lhe a
piriquita.
Mis compañeros espero que habéis gustado de mi cuento, e que me perdonen si dice
algo que no os he agradado, pero solo querría divertirlos.
Aprendí mucho con cada uno de vosotros e no se olviden
nunca que: “el
saber no ocupa lugar!”
A nuestra maestra muchas gracias por su empeño e
paciencia.
Hasta cualquier día, se no fuera antes…
Saludos,
Piriquita
Os meus poemas preferidos:
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Pedra
Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
Sorridente, ao nascer do dia,
ele sai de casa com a sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado.
À noite, regressa a casa cansado
e estranhamente feliz
porque a sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada e que belo dia!
Antes de entrar, limpa as botas
num tapete de compridos pêlos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.
ele sai de casa com a sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado.
À noite, regressa a casa cansado
e estranhamente feliz
porque a sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada e que belo dia!
Antes de entrar, limpa as botas
num tapete de compridos pêlos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.
Álvaro Magalhães
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu
.